:uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse seu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

I can only imagine what it will be like

When I walk by your side

I can only imagine what my eyes will see

When your face is before me

I can only imagine

I can only imagine

 

Surrounded by Your glory

What will my heart feel?

Will I dance for your Jesus?

Or in awe of you be still?

Will I stand in your presence?

Or to my knees will I fall?

Will I sing hallelujah?

Will I be able to speak at all?

I can only imagine

I can only imagine

 

I can only imagine when that day comes

And I find myself standing in the Son

I can only imagine when all I will do

Is forever, forever worship you

I can only imagine

I can only imagine

Lição para vida, n.º 01.

Exclua de seu vocabulário a palavra autodidata: eles não existem. Ninguém é capaz de aprender nada sozinho, pois todo conhecimento emana de alguma fonte anterior, nem que seja esta a própria vida. E se um dia vierem a te perguntar o que é um autodidata, não se esqueças de responder: um tolo.

– E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes. – Pausa – as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão – Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.

Ainda mergulhadas no conto, as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.

– O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.

– Repita a pergunta…?

Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.

– Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.

– Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação.

A mulher encarava-a surpresa.

– Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…

– Ser feliz é para se conseguir o quê?

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto.

Releu a carta. Ia além de um mero convite; era uma intimação. Era o seu messias, a salvação, o direito ao grito mudo que sufoca, engasga, mata os lacônicos de espírito e desce, rasgando garganta abaixo e umedecendo os olhos.

Devida ao fim da Primeira Guerra Mundial e, principalmente à Revolução de 17, o país dos czares atravessava uma série de intensas mudanças de cunho político, social e econômico. Há pouco, os revolucionários haviam tomado o poder e introduziam suas ideologias: o Socialismo, a declaração de amor pela humanidade.

Mas seria aquilo o amor? Era o amor tão vil capaz de destruir vidas inteiras por meras divergências étnicas? E o amor zeloso, complacente, que tudo sofre, tudo crê e tudo suporta? Por onde se perdera esse amor? Por que ainda não revelara sua face? Escondia-se com medo ou nunca existira?

Àquela altura, para ela, fugir não era uma necessidade, ia além, era um anseio, um suplicar por socorro. Mas era irrealizável, impossível. Dirigia-se a um abismo por um caminho de mão única, lentamente, no seu compassar, escrava do tic-tac silencioso do relógio. Maria estava paralítica e grávida – diz a lenda russa que, uma vez enferma, a mulher atinge sua cura ao engravidar, então, por esse motivo, ela e seu marido, Joseph, decidiram conceber um filho.

A possibilidade do abandono invadiu-lhe a mente. E se ele a abandonasse? E se, com as outras filhas, partisse sozinho? E se o filho que esperava não a curasse? E se… E se…? Os pensamentos foram dando vazão para os “e se”. Estava sensível, tão frágil. Estava mulher. Seria o amor de Joseph como o dos homens? O amor ambicioso. O amor próprio que veste máscaras, que se esconde por entre as aparências e sai às ruas ludibriando os inocentes de alma? Era ela inocente de alma? Com tanta vivência poderia realmente considerar-se inocente? Ou era o viver algo tão incomensurável que não lhe conhecia um ínfimo? Sabia ela viver ou necessitava aprender?

Mergulhou a fundo em um poço de recordações. Estava a procura… Estava a procura… Do que mesmo estava a procura?! Não sabia ou não o encontrava? A água turva não a deixava enxergar; salobra, fétida, não deixava que provasse de sua essência. Ver por entre a água seria suicídio, provar-lhe o íntimo, o extremo pecado.

O choro preso à sua garganta desabrochou nos vales de seu rosto – profundos e antigos. Na aridez de um deserto, inaugurava-se um novo período e cheias; sem previsões para término.

Tonalidade gris. Blues melancólico.

Súbito.

– O que te afliges, questionou Joseph, por que choras?

Era esmagada por suas dúvidas e medos, pela certeza de que nada vivera e de que já era tarde demais para isso. Seria mesmo tarde? O início de uma vida em outro país e a possibilidade de cura não eram sinais de que possuía em mãos uma segunda chance? Ou seria Deus tão vil para mostrar-lhe a terra da promessa, mas apossar-se dela?

Por um instante, a esperança florou em seu coração. Ah, como era bom sentir a primavera. O aroma das flores. Sentiu o vento bater em seu corpo e cantar: entrega-te. Sentiu a luz do sol adentrar pela janela e iluminá-la: entrega-te. Sentiu a essência da vida que reinava lá fora. Provou o gosto do mel à boca. Estava fênix. Vermelha, brilhante, ardente; queimando na possibilidade de realizar-se.

Ganhava uma nova vida, assim como a ganham os cativos libertos da guerra? Ou não se desvinculara de seu regime de necedade?

– Nada me afliges, respondeu pensativa, (…) nada me afliges.

Procurei atentamente, para que não houvesse quaisquer possibilidades de meus olhos me enganarem. Letra a letra. Autor a autor. Não satisfeito, dirigi-me à vendedora:

– Tem Clarice Lispector?

– Algum título em especial?

– Qualquer um da Clarice Lispector.

– Tem livro da Clarice Lispector? – perguntou ela a outra vendedora.

– Não, não tem – respondeu.

Agradeci e me retirei. Dei mais alguns passos até chegar à outra livraria:

Organizado por gênero e, dentro do gênero, por ordem alfabética do sobrenome do autor:

Auto-ajuda, biografia, direito, informática, LITERATURA BRASILEIRA:

I-J-L:

Paulo Leminski, Monteiro Lobato, Lya Lyft:

E nada de Lispector.

Outra vez, procurei a vendedora, que organizava alguns livros na estante de poesia:

– Tem Clarice Lispector?

– Hum… – hesitou ela – Tá em falta, mas eu tenho Cecília Meireles.

– Tsc, tsc. Não, não, eu queria Clarice Lispector.

– Só Clarice Lispector?

– Uhum.

– É… Clarice Lispector a gente não tem.

– Tudo bem, muito obrigado.

A forma como Clarice escreve me enfeitiçara há tempos. A transmutação de seus textos fazia com que eu os necessitasse; necessitava experimentar a barata, viver a minha hora da estrela.

E nessa minha via crucis: outra livraria.

– Tem Clarice Lispector?

– Não trabalhamos com os livros da Clarice Lispector – respondeu-me o vendedor com uma cara de decepção.

Não trabalhavam com os livros da Clarice?

– Obrigado – agradeci me retirando.

Àquela altura, eu já me encontrava desanimado e cético de que encontraria Clarice Lispector. Fiz minha última tentativa. Entrei e fui direto à vendedora.

– Tem Clarice Lispector?

– Qual livro? – perguntou-me simpaticamente.

– Qualquer um dela.

– Eu só tenho esse aqui.

Levou-me até a prateleira e de lá retirou um livro. Olhei a capa: azul. Senti em mim a felicidade clandestina. Havia Clarice Lispector; DE CORPO INTEIRO.

Eu caminhava pela rua, depressa, preso aos meus pensamentos, preso as minhas pressas. Foi quando um ato me reteve. Cético, voltei-me para observar a seguinte cena: uma garota, a qual a sujeira e seu forte odor declaravam sua condição, estava sentada ao chão, com seu filho, ainda bebê, aos braços. Seus olhos, além de quaisquer palavras, entregavam a todos a sua aflição.

Então um senhor, praticamente nas mesmas condições da moça e de seu filho, parou em frente ao casal. Olhou-a humanamente. Aquilo ceifou-lhe o coração. Colocou uma das mãos dentro do bolso. A calça rasgada, imunda, fétida. Tirou algumas moedinhas. Segurou-as firme. Por um momento, ficou meditabundo. Mas, em um ato rápido e ríspido, com medo de arrepender-se, entregou-as à mulher.

– Compre algo de comer, disse ele.

E sem olhar para trás, partiu. Agora, como sobreviveria ele a esse dia?

Despertei então. O que significava aquilo?

Fui embora enxertado de um sentimento de omissão, culpa, falta, vergonha. Tivera eu condições e oportunidade para ajudar e não o fizera. Enquanto aquele senhor, agora, enchia-se de amor, gratidão, felicidade. Estava alimentado.

Por longos minutos, não consegui não pensar no ocorrido. Mas eu tinha pressa. Aos poucos, meus pensamentos voltaram a ser os anteriores.

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