Releu a carta. Ia além de um mero convite; era uma intimação. Era o seu messias, a salvação, o direito ao grito mudo que sufoca, engasga, mata os lacônicos de espírito e desce, rasgando garganta abaixo e umedecendo os olhos.
Devida ao fim da Primeira Guerra Mundial e, principalmente à Revolução de 17, o país dos czares atravessava uma série de intensas mudanças de cunho político, social e econômico. Há pouco, os revolucionários haviam tomado o poder e introduziam suas ideologias: o Socialismo, a declaração de amor pela humanidade.
Mas seria aquilo o amor? Era o amor tão vil capaz de destruir vidas inteiras por meras divergências étnicas? E o amor zeloso, complacente, que tudo sofre, tudo crê e tudo suporta? Por onde se perdera esse amor? Por que ainda não revelara sua face? Escondia-se com medo ou nunca existira?
Àquela altura, para ela, fugir não era uma necessidade, ia além, era um anseio, um suplicar por socorro. Mas era irrealizável, impossível. Dirigia-se a um abismo por um caminho de mão única, lentamente, no seu compassar, escrava do tic-tac silencioso do relógio. Maria estava paralítica e grávida – diz a lenda russa que, uma vez enferma, a mulher atinge sua cura ao engravidar, então, por esse motivo, ela e seu marido, Joseph, decidiram conceber um filho.
A possibilidade do abandono invadiu-lhe a mente. E se ele a abandonasse? E se, com as outras filhas, partisse sozinho? E se o filho que esperava não a curasse? E se… E se…? Os pensamentos foram dando vazão para os “e se”. Estava sensível, tão frágil. Estava mulher. Seria o amor de Joseph como o dos homens? O amor ambicioso. O amor próprio que veste máscaras, que se esconde por entre as aparências e sai às ruas ludibriando os inocentes de alma? Era ela inocente de alma? Com tanta vivência poderia realmente considerar-se inocente? Ou era o viver algo tão incomensurável que não lhe conhecia um ínfimo? Sabia ela viver ou necessitava aprender?
Mergulhou a fundo em um poço de recordações. Estava a procura… Estava a procura… Do que mesmo estava a procura?! Não sabia ou não o encontrava? A água turva não a deixava enxergar; salobra, fétida, não deixava que provasse de sua essência. Ver por entre a água seria suicídio, provar-lhe o íntimo, o extremo pecado.
O choro preso à sua garganta desabrochou nos vales de seu rosto – profundos e antigos. Na aridez de um deserto, inaugurava-se um novo período e cheias; sem previsões para término.
Tonalidade gris. Blues melancólico.
…
Súbito.
– O que te afliges, questionou Joseph, por que choras?
Era esmagada por suas dúvidas e medos, pela certeza de que nada vivera e de que já era tarde demais para isso. Seria mesmo tarde? O início de uma vida em outro país e a possibilidade de cura não eram sinais de que possuía em mãos uma segunda chance? Ou seria Deus tão vil para mostrar-lhe a terra da promessa, mas apossar-se dela?
Por um instante, a esperança florou em seu coração. Ah, como era bom sentir a primavera. O aroma das flores. Sentiu o vento bater em seu corpo e cantar: entrega-te. Sentiu a luz do sol adentrar pela janela e iluminá-la: entrega-te. Sentiu a essência da vida que reinava lá fora. Provou o gosto do mel à boca. Estava fênix. Vermelha, brilhante, ardente; queimando na possibilidade de realizar-se.
Ganhava uma nova vida, assim como a ganham os cativos libertos da guerra? Ou não se desvinculara de seu regime de necedade?
– Nada me afliges, respondeu pensativa, (…) nada me afliges.

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